Burle Marx: segredos do maior paisagista brasileiro

Burle Marx: segredos do maior paisagista brasileiro

Se olharmos com critério para as espécies existentes em nossos jardins perceberemos uma realidade assustadora: ainda hoje, temos pouco uso de plantas nativas. Temos tantas árvores, palmeiras, arbustos, forrações exóticos em nosso cotidiano enquanto nossa fauna é uma das mais ricas do mundo. Nosso maior paisagista brasileiro, Roberto Burle Marx foi o pioneiro no emprego de nossa fauna.

O Brasil possui mais de 5 mil árvores nativas e mais de 50 mil plantas em geral. Então, qual o motivo de recolhermos a mudas asiáticas, africanas e européias? Quando começamos a urbanizar os grandes centros, assim como ocorreu na arquitetura, quisemos impor uma realidade do que ocorria nas ruas da Europa e da mesma maneira fizemos em nossos jardins.

Isso predominou no Brasil durante vários anos e esse conceito só começou a mudar após o mestre Burle Marx, nosso maior paisagista, vivenciar essa situação de uma maneira muito curiosa e acabar mudando os conceitos de jardim existentes até então.

Desde muito cedo o menino Roberto Burle Marx, incentivado pela mãe, se deliciava nos jardins de sua casa, cultivando rosas, begônias, antúrios e gladíolos. Porém, a descoberta das plantas nativas ocorreu de forma curiosa depois que Burle Marx teve de se mudar para Berlim entre os anos de 1928 e 1929.

Bromelia tropical cor de rosa
Nativas: equilibrio ambiental

Lá, passeando pelo Jardim Botânico de Dahlem ele se deparou com espécies belíssimas e que na realidade eram de origem BRASILEIRAS. Sim, plasmem! Burle Marx iniciou seu conhecimento de fauna brasileira na Alemanha! Isso porque botânicos alemães em expedições as terras do Brasil haviam coletado espécies nativas destas plantas e as haviam colocado em exposição.

Tamanha foi a fascinação que essa visita aos jardins alemães exerceu sobre Burle Marx que ao voltar ao Brasil, ele iniciou uma busca pela fauna brasileira que durou sua vida inteira. No início de sua carreira, seus projetos sofreram muita resistência a serem aceitos, pois a elite conservadora queria o mesmo padrão europeu com jardins de camélias, azáleas, magnólias e nogueiras.

As espécies brasileiras eram consideradas vulgares e seu uso não era bem visto. Mas o paisagista não teve medo e insistiu no uso das espécies pois acreditava que esse paradigma deveria ser quebrado, já que nossas plantas eram extremamente esplendorosas e muito apreciadas em outros locais do globo, além de que não requeriam adaptações climáticas.

Evidentemente, além da beleza de nossas plantas, Burle Marx sabia que as plantas nativas do Brasil possuíam ambiente ideal e numa época em que nem se sonhava com o termo sustentabilidade, nosso pioneiro já possuía vertentes ecológicas. Ao contrário das espécies exóticas, a utilização das plantas nativas da região requer menos uso de água, menos manutenção e equilíbrio com a fauna.

Com toda a resistência da sociedade, as ideias de Burle Marx mostraram-se demasiadamente fortes e esse estilo humanístico e orgânico vinha para ficar e modificar os antigos padrões.

As bromélias e suas exuberâncias tiveram por fim um lugar merecido

Bromelia tropical
Bromelia tropical

nos jardins de Burle Marx, assim como várias espécies de filodendros, heliconias, palmeiras e orquídeas. Ele criou um estilo que hoje em dia é conhecido como paisagismo brasileiro, muito difundido no meio pela sua beleza, leveza e funcionalidade, sempre estabelecendo contrates em seus jardins.

Quando fazia um jardim, Burle Marx dizia que a beleza de uma espécie de planta que fica no meio da floresta, precisa ser vista em um local de destaque, onde se possa admirá-la em toda sua plenitude, demonstrando suas diferenças ou semelhanças. Nisso consistia a base dos seu jardins: mostrar o “caráter da planta”, como costumava dizer.

Burle Marx foi contemporâneo dos arquitetos Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, junto aos quais projetou vários jardins para Brasília, como o Palácio do Itamaraty, a Praça dos Cristais, O Palácio da Justiça, o Palácio do Jaburu, dentre tantas outras obras.

Além de seus projetos, Burle Marx fazia grandes expedições pelo solo brasileiro em busca de conhecimento e seu trabalho trouxe mais de 100 novas espécies catalogadas. Era um botânico auto-didata. Sua busca foi constante, sempre testando novas espécies em seu sítio e depois transplantando para seus jardins. Conheça o sitio-roberto-burle-marx

Como disse antes, ele foi um dos primeiros ecologistas, sem talvez saber que era. Hoje em dia esses conceitos de sustentabilidade estão meio arraigados em nossa sociedade, mas nos anos 40, 50 ninguém se importava com isso. Por esse motivo tantas pessoas dizem que Burle Marx viveu a frente de seu tempo.

foto de Burle Marx
Burle Marx

Quem conhece o trabalho de Burle Marx vai dizer que ele não utilizava apenas nativas em seus jardins. Realmente isso é verdade. Ele também não abria mão de utilizar algumas espécies exóticas que considerava que mereciam destaque. Mas há que se considerar que ele foi a primeiro a considerar a nossa flora nos seus projetos.

Como todos sabem, devemos plantar árvores nativas para compensar as matas que infelizmente devastamos e dos benefícios que essa regeneração provoca no meio, como melhorar o ar que respiramos, evitar erosão e assoreamento dos rios, equilibrar a temperatura ambiente, reduzir os ruídos das grandes cidades entre outros.

Mas há outros aspectos que devemos observar quando propomos o uso dessas espécies nos nossos jardins. Quando optamos por utilizar uma planta nativa, devemos ter em conta que ela está sendo plantada no seu local de origem, na melhor condição climática que poderia ter.

Com isso, suas necessidades já estão basicamente atendidas. Requerem menos regas, pois estão acostumadas com a quantidade de chuva que recebem, possuem defensores naturais, como pássaros e insetos que se alimentam das pragas que costumam atacá-las e, crescem de maneira regular e saudável sem precisar de adubos especiais.

Há que se observar também que o Brasil é um país continental e dentro do qual possuímos climas e relevos muito distintos. Por isso, mesmo sendo nativas, as espécies precisam ser plantadas nas suas respectivas regiões de origem, ou seja, uma Araucária ou Pinheiro do Paraná não pode ter o mesmo desempenho se plantado na Caatinga, assim como Heliconias não se adaptam à locais muito secos.

Essas espécies plantadas nos ambientes errados, apesar de serem nativas, tem o mesmo desempenho de mudas exóticas. Por este motivo é muito importante fazer uma pesquisa mais detalhada para encontrarmos as mudas ideais para cada jardim.

Espero com esse post ter pelo menos plantado uma sementinha de curiosidade na mente de vocês e que isso gere alguma pesquisa buscando conhecerem um pouco mais de nossas plantas e que revejam seus jardins por outra ótica, pelo bem da natureza, pelo nos so bem!

Viva o jardim sustentável!

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