A mentira do Outono brasileiro

A mentira do Outono brasileiro

O que é o outono para você? A estação das folhas esvoaçantes que no final do dia formam um tapete de vários tons que vão do amarelo ao vermelho espalhadas pelo chão?

Ora, vamos combinar que essa imagem romantica, nós brasileiros, só vemos em filmes ou quando fazemos uma viagem ao exterior.

Em outras palavras, o que acontece aqui é bem distante disso.

Em quase todo o país, o verão é marcado pelo  calor, o inverno pelo frio, a primavera, pelas flores, mas o outono passa quase despercebido.

Com exceção dos estados do Sul, os outros estados brasileiros, só percebem que é outono porque os dias são geralmente com sol forte e o fim da tarde é marcado por uma brisa gelada.

Mas as árvores permanecem vestidas, como que envergonhadas.

Isso ocorre porque a mata nativa brasileira possui poucas árvores decíduas, ou seja, árvores que perdem suas folhas durante o outono e que as recuperam na primavera.

Na mata nativa brasileira predomina o verde

Apenas de 20 a 30% de nossas árvores possuem passam pela perda das folhas durante o outono.

Ainda assim, poucas perdem totalmente suas folhagens.

floresta tropical muito fechada
Foto de Amal Abdulla – Pexels

Isso ocorre entre outras coisas porque não temos grandes oscilações de temperatura e de incidência de sol durante o ano.

Nossa vegetação que não sofre essa perda foliar tão intensa, fica meio opaca, perde o viço.

O verde já não é tão radiante. Fica triste.

Mas nossa paisagem não destaca essa estação como aquele dia melancólico e doce com o sol penetrando entre os galhos meio despidos das árvores, fazendo o tempo parecer que passa mais devagar.

Por outro lado, a perda de grande parte das folhas é uma característica típica em locais de invernos rigorosos, onde a vegetação precisa se preparar para poder superar os dias frios.

Porque no outono as folhas ficam amarelas e caem?

A estratégia das árvores que perdem folhas é bastante curiosa.

Na verdade esse procedimento ocorre como forma de sobrevivência da espécie que se desfaz de suas folhas para reter a umidade, que muitas vezes não consegue repor pela absorção dos solos congelados.

Quando o outono se inicia e consequentemente a luz solar diminui, a quantidade de clorofila produzida sofre uma queda sensível.

Por este motivo, algumas espécies começam a mudar de cor.

Na verdade os tons de vermelho, laranja e amarelos surgem devido à ausência da clorofila, que disfarça esses pigmentos enquanto está sendo produzida.

arvore com folhas vermelhasA partir do momento que a planta pára de produzir clorofila, esses tons surgem.

Após a mudança de cor das folhas, a árvore produz um hormônio, chamado de ácido abscisico.

Esse hormônio age na base do pecíolo (parte da folha que a prende ao ramo) que impede que a água passe, tornando as folhas secas, que se desprendem e caem.

O outono tem luz própria

Esse festival de mudança de cores e posterior queda das folhas, torna o outono mais poético nos países frios.

Trás uma beleza no desfalecer das árvores que encerram um ciclo de vida de forma tão esplêndida, demonstrando toda a sabedoria milenar da natureza.

A transição desta espetacular paisagem, tendo como fundo o céu azul, tantas vezes foi retratada por artistas que julgam não haver estação do ano com matizes de cores mais vibrantes como estas.

Dizem os artistas que a luz distinta do outono tem um brilho intenso e profundo, onde o ar fica suspenso à espera da quase-morte no inverno.

Mas não fiquem tristes brasileiros!

folhas alaranjadas de uma arvore

Em troca dessa sensível variação de temperaturas com estações bem definidas, temos uma das floras mais diversas do mundo.

Um estrangeiro uma vez me disse ao conhecer a nossa Mata Atlântica: aqui tudo é verde! 

A admiração pelo desconhecido é a mesma. Então enquanto cobiçamos o outono deles, eles invejam nossa rica vegetação, que não sobrevive além dos trópicos.

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