Relato de uma sobrevivente da seca paulista

Relato de uma sobrevivente da seca paulista

Em 2014, tivemos no Estado de São Paulo um longo período de seca, cujos registros históricos apontam como o mais grave dos últimos 80 anos.

caminhão pipa sendo escoltado pela policia
Caminhão pipa sendo escoltado

Esse panorama nos faz reflexionar sobre o que é viver isso, o impacto da falta de água e a destruição ambiental.  Eu morava na cidade de Itu, interior de São Paulo. Essa cidade foi o local mais afetado pela falta de chuva no ano, não apenas ocasionado pela seca propriamente dita, mas como também pelo descaso das autoridades locais.

Não pretendo com esse post comparar o que ocorreu no Estado com o que ocorre sistemicamente no Nordeste do Brasil. O que ocorre lá não tem menos importância do que ocorreu em São Paulo. Contudo, é novidade, a seca no Sudeste, causa o efeito do drama surpresa. Como seca em São Paulo? Isso não é coisa do Nordeste?

Justamente como isso afetou a vida dos paulistas (inclusive a minha) que quero retratar nesse post. No ano de 2013 eu já trabalhava com jardinagem, mas adquiri uma modesta flora como forma de alavancar novos negócios e também comercializar plantas.

Eu remodelei um comércio que já existia, fiz uma reforma geral, pintei o local, doei algumas espécies, replantei outras, refiz a estufa e construi um rancho para abrigar as caixarias de espécies rasteiras. Também adquiri plantas novas, vasos, enfim, tudo o que era necessário para iniciar o negócio.

Tudo isso eu fiz nos meses de janeiro e fevereiro de 2015. No mês de março, já havia notícia de que alguns bairros da cidade de Itu sofriam com desabastecimento em dias alternados. Não era meu caso. Minha rua ainda tinha água todos os dias. Com o passar dos meses, a situação foi se agravando e era frequente a falta em muitos locais. Em junho comecei a sentir os efeitos da crise hídrica na minha loja.

Até aí eu tinha providenciado um reservatório maior e ia administrando os dias sem água para poder regar as mudas adequadamente. Mas o desabastecimento só piorava. Não havia chuva e tampouco alguma solução da Prefeitura. A população começava a sofrer. Alguns bairros já ficavam semanas sem uma gota de água na torneira.

população pegando agua na bica
Escassez de Água

A coisa foi evoluindo até o ponto que ninguém tinha água durante o dia. A água só chegava de madrugada. A população então começou a ter hábitos noturnos. Quando o abastecimento era liberado no meio da noite ia todo mundo lavar roupa, limpar casa, tomar banho e armazenar água. Era impressionante como tinha atividade nas madrugadas.

Eu não morava no local da flora e quando chegava a água, minha vizinha me ligava e eu saia de casa e ia até a flora as 2 horas da manhã para molhar as plantas e armazenar um pouco de água. Isso levava muito tempo, pois como toda população  fazia o mesmo a vazão era muito fraca.

Começaram então os desfiles de caminhões pipas. Quem tinha dinheiro, comprava água. Piscinas viraram depósitos. Reservatórios de caixas d´águas já não eram encontrados nas lojas de materiais de construção para serem comprados. Todo mundo tentava armazenar um pouco de água como podia.

Nesse momento, o abastecimento foi totalmente cortado. Não havia mais água em nenhum momento do dia. Os mais pobres caminhavam quilômetros até alguma bica existente para encher seus baldes ou contavam com a ajuda de algum amigo que tivesse poço artesiano.  

A situação era de desespero. Eu fui várias vezes com minha família até a cidade vizinha de Sorocaba onde mora minha mãe, para tomar banho, lavar roupa e fazer comida.

Foi então que a Prefeitura começou a colocar reservatórios de 20 mil litros em alguns pontos da cidade. A solidariedade nesses momentos desponta em muitos lados. Vizinhos se ajudam dando carona para quem não tem carro para fazer o transporte, pessoas levam água para casas de doentes e idosos, a comunicação sobre novos pontos de fornecimento é repassada, enfim, não havia distinção de classes, todos padeciam do mesmo problema.

imagem da minha flora
Minha pequena flora

Não preciso nem dizer que meu comércio estagnou. Quem pensaria em fazer um jardim se não podia garantir água para viver? Eu comprava água de caminhões para poder molhar as minhas plantas, mas mesmo assim, perdi muitas. O preço era absurdo, além do que muitas vezes eu encomendava e não tinha previsão de entrega, tamanha era a procura.

Felizmente, as chuvas vieram em setembro. Com ela o alívio de poder atender às necessidades mais básicas. O reabastecimento levou três meses para se normalizar.

Aguentei a barra até janeiro do ano seguinte, mas as pessoas estavam reticentes quanto a refazer seus jardins. Manter a flora me parecia muito arriscado, tendo como notícias que no ano de 2015 talvez a situação se repetisse. Decidi recuar e voltar apenas a atuar prestando serviços  com jardinagem e paisagismo.

Junto com uma sócia, mudei a empresa de local e passei a vender plantas e insumos apenas dentro dos projetos que fechávamos. Encerrei as atividades da loja.

A seca não se repetiu no ano seguinte, felizmente. Mas ficou um trauma e o sonho destruído de ter de desfazer de um local que era tão agradável e que me inspirava. Tento não pensar se agi certo ou errado fechando as portas. Naquele momento, era o que me pareceu o mais adequado.

pessoas buscando agua
Reservatórios abastecendo a populaçao

Conto essa história para demonstrar como senti na pele que o desequilíbrio ambiental pode afetar diretamente nosso dia-a-dia. O que parecia um problema distante, está batendo na nossa porta e não estamos fazendo nada para mudar isso. Temos de refletir sobre como estamos agindo com nosso  mundo! Dispomos de  tanta informação hoje mas o que fazemos com ela?

Nossos filhos aprendem na escola conceitos de sustentabilidade e meio ambiente e quando chegam em casa, vem seus pais misturarem lixo reciclável com orgânico, aplicarem inseticidas nas aranhas de jardim,  matando abelhas que vem polinizar o pomar, jogando entulho no terreno vazio e por aí vai…

O que pensam as crianças então? Porque eles vão plantar uma árvore nativa na praça se seus pais  derrubam a árvore da calçada porque faz muita sujeira?

Gestos pequenos, fazem grandes mudanças! O cidadão comum muitas vezes  não pode sair plantado árvores nas matas e beiras de rios, mas pode fazer sua parte na cidade.

Pode voltar aos tempos de nossas avós e plantar numa latinha aquele manjericão cheiroso para que nossas crianças possam valorizar e entender o que representa o cultivo. Pode plantar uma árvore frutífera na porta de casa, para atrair pássaros que cantem na janela pela manhã. Pode aprender que mexer na terra não é sinômino de sujeira e incentivar o cultivo aos seus filhos. Pode enfim, mudar seus olhos para as coisas simples que movem a natureza e com certeza ser um exemplo.

Com isso, estaremos fazendo sustentabilidade para nossa geração. Hoje e agora! Não vamos adiar para amanhã o cuidado com a vida. O planeta está chorando. Ouvi alguém dizendo que a Natureza não existe para o homem, mas o homem faz parte dela. Concordo plenamente!

Vemos a natureza como algo abstrato e distante, no qual não estamos inseridos. E é justamente o contrário, fazemos parte dela! E como parte da Natureza, temos o dever de protegê-la e restaurá-la, agora, já! Exigir das autoridades melhores políticas ambientais, conservando as matas e rios, recompondo matas ciliares e reativando nascentes, para que o absurdo que passamos no ano passado não volte a se repetir NUNCA MAIS! 

Um comentário em “Relato de uma sobrevivente da seca paulista

  1. O ano de 2016 está quase na metade e nenhum providência foi adotada pelos nossos governantes. Passamos pelo mesmo sofrimento e acredito que tudo irá se repetir. Torço para não estar certo.
    Adorei o Blog. Parabéns

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