Agrofloresta para uma agricultura sustentável

Agrofloresta para uma agricultura sustentável
agrofloresta
Agrofloresta

O grande desafio da produção alimentícia do mundo é conciliar interesses econômicos, sociais e proteção ambiental. Por este motivo, a agrofloresta surge como uma alternativa para a agricultura sustentavel, explorando conceitos muito antigos de cultivo familiar de uma época em que nem se sabia o que significava as palavras “sustentabilidade”, “ecologia” ou “educação ambiental”.

Foram agregados as técnicas tradicionais, muitos conhecimentos científicos de ecofisiologia, que tem como estudo a flora e a fauna e seu funcionamento e manifestação diante do meio ambiente. Além disso, uma preocupação econômica é seriamente levada em conta, já que sem retorno financeiro rápido, o pequeno produtor não conseguiria manter o processo.

Enquanto as lavouras tradicionais derrubam florestas para sua implantação, as Agroflorestas ou Sistemas Agroflorestais – SAF´s, utilizam as árvores em seu benefício. As espécies são plantadas em conjunto com o plantio de várias culturas, como legumes, hortaliças e frutas.

Há que se ressaltar que o objetivo da Agrofloresta não é reconstruir a mata nativa, mas sim de utilizar princípios ecológicos como forma de equilibrar o meio. Esse sistema tem como fim a lucratividade de sua colheita como toda forma de agricultura, porém com técnicas menos agressivas.

A primeira função das árvores, neste tipo de cultivo corresponde ao fornecimento de matéria orgânica para formação da biomassa, além de proporcionar sombra para os vários produtos que estão a sua volta, retendo maior volume de água e, através de suas raízes, combatendo a erosão do solo.

varios cultivos
Agricultura sustentável

As árvores de médio e grande porte podem proporcionar uma renda extra ao produtor rural seja com a venda de madeira, produção de frutos ou com a venda do Carbono, que hoje é adquirido por várias empresas para atender às exigências estabelecidas pelo protocolo de Quioto.

Na primeira fase do projeto, são plantadas árvores de crescimento rápido visando o aceleramento da recuperação do solo. Através de podas constantes, que são depositadas no próprio local a fim de produzir a biomassa e também resgatando micro-organismos e insetos que incorporarão o esterco natural, geram a produção de nutrientes.

Mesmo sendo implantados em locais de séria degradação de solo, ocasionada pelo excessivo plantio de monoculturas e pastagens, os SAF´s tem demonstrado uma resposta ágil quanto a fertilidade do solo.

Entenda como funcionam a Agrofloresta

Pioneiro em SAF´s no Brasil, o produtor de cacau e outras culturas, Ernest Gotsch, utiliza a poda de árvores e arbustos, como a ferramenta mais importante no processo. Quando adquiriu sua propriedade no Estado da Bahia, o solo era semi-árido e em poucos anos, o transformou num local de muita fertilidade, com o retorno da fauna local e a reativação de vários riachos que estavam secos, situação essa muito diferente da realidade de seus vizinhos.

Antes de iniciar o plantio, Ernest preparou uma roçada seletiva, arrancando a vegetação rasteira, mas preservando mudas de árvores nativas. Todo o material retirado permaneceu depositado no solo para gerar matéria orgânica.

O primeiro cultivo eleito pelo produtor foi o abacaxi, única cultura, segundo ele, que poderia prosperar num solo tão ácido. Além de produzir, o abacaxi tinha uma função importante: abrigar as primeiras sementes, que foram plantadas junto das mudas. Assim foram depositadas as sementes de jacarandás, sapucaias, louros, jaqueiras, cacaueiros e seringueiras.

O passo seguinte foi introduzir plantas para atraírem minhocas, como a planta ornamental, hibisco. O húmus produzido pela minhoca ajuda a corrigir o Ph ácido do solo e junto com o material orgânico depositado, começa a gerar um solo fértil de maneira rápida. Após o plantio do abacaxi são introduzidas gradativamente outras culturas como milho, mandioca, banana, mamão e cítrus.

cultivo com floresta
Sombras auxiliam no plantio

De maneira semelhante ao que ocorre na natureza, os SAF´s são estabelecidos por fases:

– Espécies colonizadoras: vegetação rateira e mudas pequenas de árvores
Espécies de mata secundária: que fazem sombra e geram condições para a próxima fase
Espécies de mata primária: floresta adulta

Mas além da produção agrícola, esse desenho pode ser utilizado pra fins pastoris ou ainda com a combinação de ambos. Ou seja, alguns projetos criam gado embaixo de mata, gerando alimento rasteiro de grande poder nutritivo.

Outros benefícios extras dos Sistemas Agroflorestais são a regulação do microclima e o equilíbrio hídrico local. Mas além disso, a harmonia biológica alcançada gera um ciclo de vida que promove o controle de pragas e o desaparecimento de doenças ocasionadas por fungos e bactérias que atingem outras culturas.

Aspectos econômicos da Agricultura Sustentável

Com tantos benefícios  ambientais comparados aos cultivos tradicionais, a Agrofloresta não poderia seguir adiante se não se demonstrasse altamente rentável. O pequeno produtor não pode ficar anos investindo em meio ambiente sem ter condições de manter sua família. Mas a boa notícia é que esse sistema tem dado um retorno financeiro muito rápido além de outros pontos favoráveis como:

– Otimização do espaço da propriedade. Não há nenhuma perda de espaço da propriedade, todo espaço improdutivo recebe uma muda com fim de ajudar na biodiversidade e/ou criar biomassa

– O rendimento da produção no geral tende a ser maior do que na monocultura

– Como as colheitas são variadas, o produtos não ficam sujeito às flutuações de preço das safras, diminuindo o risco do negócio

– Distribuição mais uniforme das tarefas e também da renda do produtor ao longo do ano, já que cada produto tem sua época de plantio e colheita.

– O cultivo de vários produtos é de grande importância para a agricultura de subsistência

– Inexistência de gastos com adubos e inseticidas

– Com o equilíbrio hídrico, há redução ou inexistência de gastos com irrigação

Com tudo isto, a Agrofloresta já se mostrou eficiente ao pequeno produtor, contudo ainda encontra muita resistência dos produtores maiores que tem dificuldade de introduzirem a forma de cultivo por ainda não conseguirem viabilizar a mecanização neste tipo de lavoura.

Há algumas exceções, principalmente no segmento de orgânicos, como é o caso da Fazenda da Toca no interior de São Paulo, que produz alimentos orgânicos em larga escala e que está começando a utilizar as técnicas agroflorestais de cultivo em sua produção. Mas é apenas uma gotinha no oceano da produção em escala e ainda temos um longo caminho a percorrer na agricultura mundial.

Mas o que creio que seja o grande motivador para que haja uma mudança de fato, está nas mãos de nós consumidores, que temos o papel de exigir alimentos menos tóxicos para preservar nossa saúde e que a produção dos mesmos partam do respeito à natureza, que podem ser feitos através de SAF´s ou de outro sistema sustentável.

2 comentários sobre “Agrofloresta para uma agricultura sustentável

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